21 outubro 2010

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Interessa-me que o país ande para a frente. Que se deixe de viver tão mal em Portugal.
Claro que tudo depende do termo de comparação - haverá obviamente muitos lugares onde se vive mil vezes pior. Mas não podemos deixar de ter termos de comparação. E, embora não tenha estado em todos, acredito que na esmagadora maioria dos países europeus não se vive tão mal. É certo também que tenho agora sensores onde antes não tinha: entrou o João Maria na minha vida, como se sabe. Mas se fechar os olhos e pensar em Madrid, em Bruxelas, em Lubliana, tenho quase a certeza que as questões que agora me saltam aos olhos lá não se poriam.

Não quero ser maçadora, não quero ser derrotista ou pessimista. Mas a verdade é que em algumas coisas parecemos terceiro mundo. É certo que não andei a correr todas as cidades e vilas e praias do país com o meu bebé mas garanto-vos que, por onde estive, foi sempre com dificuldade que andei. Digo assim, na primeira pessoa porque no fundo, sem mim, ele não anda: tem de ir num apoio de rodas, que é a forma de ele se deslocar. E fico ainda mais sensibilizada porque penso em todos os cidadãos que têm de o fazer, não importa se são bebés ou não. Se por um período da sua vida ou para sempre.

Não faz grande diferença estarmos no norte ou no Algarve, no que toca a acessibilidades para  transeuntes de rodas o cenário é sempre o mesmo: a ausência  de rampas de acesso é  gritante- seja dos passeios para as lojas, dos elevadores para os apartamentos ou dos passeios para a estrada ( bem, às vezes nestes casos aparece uma ou outra mas ah, que má sorte, estão fora das passadeiras!); na maioria dos casos os passeios ou não existem, ou são estreitinhos de mais para o carrinho caber ( também aqui, há que dizer, aparecem alguns bem largos mas para albergar um candeeiro ou banco ou caixote do lixo bem no meio!) ou passeios a acabar abruptamente -  que nos obrigam a fazer o caminho todo para trás porque a altura para o descer quase causa vertigens ou porque uma filinha de mecos (?!) implacáveis impedem a passagem; paralelo e mais paralelo para que a trepidação torne o caminho insuportável; semáforos a demorar cinco segundos no verde para que a travessia da estrada seja uma aventura radical; restaurantes, agradabilíssimos diga-se a verdade, junto à praia mas de acesso restrito: a quem puder subir e descer algumas dezenas de escadas pelo próprio pé, claro está!

Já não falo da falta de jardins e parques urbanos, já não falo de vivermos cada vez mais em cima de vias de acesso, sem redes de comércio tradicional que nos sirvam junto a nossa casa, em ambientes citadinos suportáveis e humanos e  que nos tornariam a vida um bocadinho mais fácil - mas claro, desde que ficamos à mercê da maravilha do futuro que são os shoppings e os hipermercados que passamos a viver numa espécie de desertos, correndo para os tais "oásis- abertos- a- toda -hora" ( e agora ao domingo, para, pois claro, nos facilitar a vida!) sempre que precisamos de algo  - não importa se tem de se pegar no carro, atravessar a cidade em filas e filas, respirar um ar irrespirável e estourar com o limite do cartão de crédito!
 Mas vá, sejamos justos, ao menos esses têm rampas, elevadores e pisos lisinhos para as nossas rodinhas  nunca terem de parar !

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